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Imagem: acalcanhottoVEVO/YouTube
A música "O Cu do Mundo", lançada em 1991 por Caetano Veloso, ganhou uma nova versão na virada do mês. Dessa vez, surge na voz de Adriana Calcanhotto, acompanhada por um clipe altamente simbólico e uma sonoridade repleta de elementos da música pop. A letra crítica, originalmente motivada pelo linchamento de uma criança na Bahia, já havia sido posta como antifascista por Caetano, muito antes do boom do termo nas últimas eleições.

A crítica antifascista perpassa o clipe, que simboliza dois grupos diferentes. Um é elitizado, inclusive na dança, solitária, com um ar de finesse. Trajados de branco, com saltos altos e repleto de holofotes - literalmente -, eles têm uma série de posturas críticas nos adereços, como uma quase suástica, um quase capuz da Ku Klux Klan, uma caixa que tapa a visão, uma calota automotiva que pode simbolizar uma automatização do pensamento e uma série de elementos tapando os rostos, apagando qualquer pessoalidade.

No outro grupo, vermelho, aparece o elemento orgia - quase que onipresente nos últimos trabalhos de Calcanhotto. A dança é muito mais corpórea, coletiva e sensual. O comportamento é libertino, alegre, sexualizado e próximo ao lixo. A partir das definições dos grupos, já se pode permitir imaginar por onde caminha a crítica, mas isso fica ainda mais evidente com o refrão "A mais triste nação / Na época mais podre / Compõe-se de possíveis / Grupos de linchadores".

A narrativa é bem construída. Após a apresentação dos dois grupos, um membro do grupo vermelho é "forçado" por um do grupo branco a se adequar às suas regras. A elitização dos "brancos" fica sempre mais evidente, enquanto os "vermelhos" são, cada vez mais, aproximados da classe popular e associados à escória. A exaltação de "deuses tortos" dos "brancos" é contraposta ao bélico, um pouco como tarja, um pouco como infeliz destino para os "vermelhos". O sinal de "heil, Hitler" para uma divindade distorcida conversa com a repressão que ganha ares de violência até culminar na morte.


Nosso especialista no tema, Lúcio Souza, alerta para a coreografia e encenação do grupo Teatro da  PombaGira, responsável, também, pelo espetáculo Demônios, no qual o clipe é inspirado. Ele ressalta o uso dos gestos quase como cacoetes e compara o estilo do clipe com o Club Kids, uma vertente de drag queens dos anos 1980, com uma estética freak para chocar.

Os "brancos" são a "subsombra desumana dos linchadores" cantada por Caetano. Os "vermelhos" são os furtados, estuprados, raptados e sequestrados. O clipe simboliza a perseguição das minorias e a pressão da sociedade para fazê-las iguais à maioria. Esse protesto se enquadra muito bem à "época mais podre" que estamos vivendo, com avanços de grupos que buscam cercear liberdades individuais e perseguir opositores. Vale lembrar, também, que Adriana Calcanhotto é uma mulher lésbica que faz música de protesto e, com certeza, se enquadra em alguma minoria transviada.

A versão original da música não ganhou um clipe, seria interessante imaginar como Caetano pensaria em uma construção visual para a música, mas já são evidentes as diferenças entre as sonoridades. A canção também havia sido interpretada, além do Caetano, pela italiana - cantando na língua nativa - Fiorella Mannoia, e em ambos os casos, a roupagem tinha traços bastante instrumentais e embasados em um estilo mais tropicalista.

A versão de Adriana Calcanhotto traz batidas eletrônicas, palmas e batuques marcando o tempo e dando todo o ritmo da primeira parte da música. A parte final é um grande trunfo da produção do jovem Ubunto com o incansável DJ Zé Pedro - que ganhou fama na TV entre os anos 90 e 2000. Com cerca de cinquenta segundos, esse trecho final é uma mixagem. O eletrônico toma conta da música, os vocais de Calcanhotto são distorcidos. Nisso, ela se permite brincar mais com as notas, dando uma nota bastante pessoal à sua interpretação.

Fato, acima de tudo, é que a junção de clipe, interpretação e letra conseguiu algo improvável, tornar uma criação de Caetano Veloso ainda mais crítica. Curioso é que "Vamos Comer Caetano" costuma ser a faixa seguinte nos shows. O clipe é, com certeza, um dos mais impactantes do ano no mercado fonográfico brasileiro e a crítica antifascista é uma das mais ferinas já feitas na arte contemporânea brasileira - tida por - de alto nível. Adriana Calcanhotto reafirma, n'O Cu do Mundo, a postura politizada e resistente d'A Mulher do Pau Brasil. 
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