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Imagem: Cannes Festival



O ano é 1949 em uma Polônia pós-guerra. Mas ainda não sabemos disso. Os primeiros dez minutos que transcorrem na tela deixam o espectador sem noção de espaço-tempo, efeito acentuado pelo preto e branco das cenas. Acompanhamos, como ouvintes e talvez jurados, cantores campestres que se apresentam nas ruas da paisagem rural polonesa no que se assemelha a um documentário sobre história e cultura. A câmera segue lentamente cada rosto que canta, cada instrumento tocado, indecisa, como se procurasse o intérprete ideal. Esse movimento lânguido é interrompido no momento em que nossa protagonista entra em cena, e com ela, não sentimos mais a necessidade de nos situarmos na narrativa, pois já temos tudo o que precisamos.


Guerra Fria (Zimna Wojna, 2018), nos envolve na turbulência arrebatadora de um romance impossível entre o talentoso musicista, Wiktor (estrelado por Tomasz Kot), e a jovem cantora aspirante, Zula (brilhantemente protagonizada por Joanna Kulig), que se conhecem na paisagem árida de um país comunista em ruínas. Wiktor é um diretor musical designado a escolher jovens talentos para compor um grupo folclórico que representará o país e levará a cultura popular socialista às nações irmãs. Zula, muito talentosa, porém não tanto quanto as demais concorrentes, é uma das escolhidas e ao passo que desprende um firme magnetismo e resoluta determinação, logo capta os olhos do músico. Apaixonam-se de maneira irredutível e, num período de 20 anos contados em apenas 84 minutos numa astuta e econômica narrativa, iniciam um ciclo de encontros e reencontros capaz de tocar a mais insensível e desapaixonada das audiências. 


A obra que representará a Polônia nas premiações do Oscar, fez sua estreia no festival de Cannes em maio deste ano, competindo pela Palm d’Or e premiado na categoria de melhor direção. Quem assina o roteiro e comanda a produção é o experiente cineasta Paweł Pawlikowski, que já possui uma estatueta da Academia por seu trabalho anterior, Ida (2013), vencedor de melhor filme estrangeiro. Seu novo trabalho competirá na mesma categoria e já figura como possível favorito para a premiação. No Brasil, a estreia está prevista para fevereiro de 2019.


Como seu antecessor, Guerra Fria foi filmado em aspecto 4:3 (conhecido como aspecto da Academia) fazendo questão de enquadrar somente aquilo que importa: os dois personagens e todo o forte sentimentalismo que sobretudo é visto e não narrado, é seco e não transborda, fatalista, porém não dramático. A cinematografia é um espetáculo a parte onde a mera cena de um homem urinando na neve entre as árvores de um bosque se torna sublime e provoca a imediata sensação de contemplação serena. A paleta de cores monocromática insere o elemento atemporal de uma produção que poderia ter sido feita em qualquer época do cinema.


O casal trilha um destino trágico, extenuante e rajado de fascínio em uma rara versão ultra realista do “amor” compartilhando entre duas pessoas. Considerado frio e estéril por alguns, o romance tem como palco, além da Polônia sob o jugo stalinista, a Paris boêmia dos anos 50 e uma Iugoslávia veranil, onde cada momento de breve reencontro é tingido pela expectativa do próximo acaso que os distanciará. A trilha sonora, composta por canções populares eslavas, jazz experimental e rock cinquentista, é bastante simbólica e se impõe como demarcadora da variação do tempo e de emoções ao longo da trama.

A sombra constante da ideologia política é onipresente entre o par. No entanto, não é apenas o confronto titular que ameaça separar Wiktor e Zula, mas uma guerra fria entre os corações de ambos. Seja no âmbito democrático do ocidente capitalista, seja no leste socialista opressor e rural, eles não conseguem nunca guiar o relacionamento ao triunfo, optando por fim, a única medida derradeira que possibilite o amor pleno. Ao final da trama, Pawlikowski dedica o filme aos seus pais que, como conta em entrevista ao jornal Irish Times, compartilharam experiência semelhante e inspiraram grandemente a narrativa. Como em Ida, o cineasta, que possui forte raízes no gênero documental, insere novamente à narrativa algo de pessoal, algo que vivenciou. Dessa vez, concede à trama ainda mais particularidades ao tratar da máxima de que o tempo não importa quando se ama alguém.

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