Podcasts do Caixa

Imagem: (Reprodução/Amazon)


A plataforma de streaming Amazon Prime Video, uma das principais rivais da gigante Netflix, lançou no início de novembro sua nova aposta no gênero thriller psicológico. A série Homecoming é dirigida por ninguém menos do que o novo queridinho da televisão conceitual, Sam Esmail. Idealizador e criador da aclamada série de techno thriller Mr. Robot (2015), Esmail chamou atenção com seu debut televisivo ao levar o Globo de Ouro de melhor série dramática em 2016 e melhor programa televisivo do ano pelo Instituto Americano de Cinema (AFI). 

Em 2017, o diretor egípcio-americano deflagrou uma onda de expectativas ao anunciar que sua nova produção seria adaptada a partir de um podcast homônimo escrito por Eli Horowitz e Micah Bloomberg, sendo uma das primeiras séries de ficção baseadas neste tipo de plataforma. Desde seu lançamento, o programa tem recebido bastante reconhecimento da crítica especializada e uma segunda temporada já está em negociação. Com 10 episódios de cerca de 30 minutos cada, o seriado não se atém ao exagero no tempo de tela e assume uma postura de narrativa mais direta. 

A trama gira em torno da terapeuta Heidi Bergman que trabalha em um centro de assistência para veteranos de guerra com transtorno de estresse pós-traumático (TSPT). Aparentando ter um interesse genuíno em auxiliar seus pacientes, Heidi é protagonizada pela estrela Julia Roberts em sua primeira aparição na pequena tela. Auxiliando soldados a se ressocializar para que possam retornar às suas famílias recuperados do trauma, ela cria uma relação mais próxima com um de seus pacientes, Walter Cruz, e passa a trata-lo de forma amigável. 

Porém, para sua decepção e crescente suspeita, ela continuamente tem que justificar o tratamento mais humanizado que transmite aos pacientes para seu chefe Colin (Bobby Cannavale). Convencido de que pode extrair dados valiosos do trauma causado ao subconsciente dos internos, Colin é o típico businessman que lida com o tratamento como um produto a ser industrializado. E é daí que surge a atmosfera sempre constante de que existe alguma coisa de muito errada nesse suposto programa de auxilio psicossocial. 

Estruturalmente, Homecoming segue o estilo de narrativa do drama de áudio em que foi adaptado. Utilizando técnicas de suspense que remetem um estilo hitchcockiano, o thriller brinca com a percepção do espectador a todo momento, com uso da técnica dolly zoom e a descentralização dos personagens em tela (uma das marcas registradas de Esmail). A história salta entre duas linhas do tempo, utilizando o recurso de flashfoward, com duas versões muito diferentes da realidade de Bergman. No presente, ela é introduzida como a terapeuta que ama seu trabalho, porém quatro anos no futuro, ela é reapresentada como uma garçonete de restaurante em uma pequena cidade costeira que vive com a mãe. 

Um aspecto curioso que advém da forma meticulosa com que Esmail lida com a cinematografia de suas produções, é que a demarcação do tempo em que ocorre a trama é expressada pela mudança de dimensão na tela, ou aspect ratio. Quando estamos no presente, as cenas são filmadas em modo de “tela cheia”, enquanto no futuro, a tela assume uma estética vertical com barras laterais, passando uma impressão claustrofóbica de que algo não se encaixa. 

A maior parte da ação ocorre dentro ou em torno do centro Homecoming, enquanto um mistério paralelo se desenrola na linha do tempo futura, onde o programa de ressocialização parece ter desaparecido sem deixar rastros e nem a própria Heidi tem conhecimento do que realmente se passou quatro anos atrás. Para desvendar esse mistério, um funcionário do Departamento de Defesa (Shea Whigham) passa a investigar o ocorrido e a cada nova descoberta, o problema parece mais longe de ser resolvido. 

Com diálogos enxutos e precisos, a contextualização da trama se dá quase que inteiramente a partir da soberba direção de Esmail. O uso da sonoplastia é acentuado nos mínimos detalhes, desde do clique de uma caneta até as conversas pelo telefone que adquirem a real sonoridade da fala através de aparelho celular. 

Um dos temas centrais abordados pela narrativa, e que permeiam os trabalhos anteriores do diretor, é a desconfiança em instituições de autoridade, como o exército norte-americano e o Departamento de Defesa, e corporações gananciosas que utilizam de meios sórdidos para angariar o tão amado lucro. A guerra no Vietnã é usada como um plano de fundo do qual apenas vislumbramos as suas consequências a partir do relato dos soldados. Na trama, a real finalidade do programa Homecoming 

*ALERTA DE SPOILER* seria a de literalmente apagar a memória dos soldados relacionadas aos traumas e conflitos que vivenciaram em guerra, erradicando não só eventos chocantes como também todo o rastro da experiência, para que eles possam ser realocados novamente ao posto de combate. *FIM DO SPOILER* 

Algumas ressalvas quanto ao lento desenvolvimento da narrativa precisam ser apontadas, mas que na minha opinião apenas revelam a cautela e preocupação com a importância dos detalhes no cenário. Longe de ser um grande hit para a audiência mainstream, a série tem um enorme potencial pela frente e prova como um bom roteiro, direção e atuação podem transformar um podcast em um programa envolvente no aspecto televisivo e visualmente desafiador.
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