Podcasts do Caixa

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Um vocabulário rico, sem “desvios” e que segue a norma padrão da língua sempre me pareceu o certo a ser seguido. Aos meus ouvidos qualquer falha na concordância das palavras me parecia um atentado. Apesar de conviver com pessoas que, cotidianamente, falavam — e ainda falam — “os menino”, “as coisa”, eu não conseguia ouvir essas frases sem corrigi-las logo em seguida. Sei lá, me agoniava tudo aquilo. Ler textos com erros gramaticais — meu Deus! — era um martírio. Me faltava a consciência de que, de alguma forma, as pessoas que rodeavam poderiam não ter tido as oportunidades que tive. Foi preciso que rejeitasse meu olhar superficial e buscasse entender a construção da vida de algumas das pessoas que me cercavam. Eu precisava imergir numa realidade hostil àquela que idealizei. E, tão perto de mim, sem sair de casa, eu poderia, pelo menos, tentar deixar de lado meu preconceito, reconhecer meus privilégios e compreender a história do meu pai. Painho, desde muito cedo, trabalhou pra ajudar meu avô — um estofador, que perdeu o movimento de uma das pernas ao levar uma bala perdida da polícia enquanto trabalhava — e por isso teve que abandonar a escola. Eu, mesmo conhecendo esses fatos, ignorava eles e voltava a corrigir meu pai sempre que ele falava que havia terminado “os móvel”. Era inconcebível que painho pudesse falar assim. Isso durou por algum tempo. Eu nunca pensei que aquilo fizesse mal ao meu pai. Nunca passou pela minha mente que, de alguma forma, eu criava uma separação, uma hierarquia entre meu pai e eu. Eu estava prestes a completar 15 anos, estudava numa escola de prestígio, apesar de pública, e meu pai planejava uma festa de aniversário pra mim. Ele queria convidar todos meus amigos e colegas. Só não queria ir. Isso me deixou assustado na hora. “Acho melhor só organizar e tu traz um bolinho pra mim. Se eu for e falar errado, possa ser que te deixe envergonhado”, disse meu pai. Essa é uma memória bem viva em mim. Meu preconceito tava afastando meu pai de um momento especial pra mim. Minha dificuldade em entendê-lo estava retirando dele o de direito de se comunicar sem se preocupar em me envergonhar. Aquilo foi um choque. Me vi prostrado no chão, com raiva de mim. Enfurecido com a minha falta de alteridade, empatia. Senti-me obrigado a me desculpar com painho. Desde esse dia, eu passei a perceber e entender que a vivência das pessoas são mais ensinadoras que a norma padrão. A construção da vida do meu pai lhe impôs dificuldades que resultaram na sua gramática. Eu não poderia ser o medidor do certo e errado, nesse caso — nem em qualquer outro. Paulo Freire já dizia: “não há saber mais ou saber menos. Há saberes diferentes.” Eu não poderia medir a forma de se comunicar do meu pai partindo da minha experiência. Nem poderia desconsiderar nada do que ele falava ou escrevia apenas por fugir do padrão. Afinal, ele conseguia cumprir o objetivo da língua: estabelecer comunicação. Eu não queria aceitar aquilo como correto, mas aquilo era o correto. Nem sempre é fácil tentar entender o outro a partir do outro. Ter noção dos privilégios que temos; compreender que a nossa trajetória e a do outro não são necessariamente iguais não verbo uma tarefa confortável. No entanto, tudo isso é extremamente essencial para que a gente possa desnaturalizar o que pensamos como natural e ver que no diferente também existe uma riqueza, que certamente temos rejeitado.
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