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Batalha da Escadaria. Fonte: Reprodução/Instagram

Que a cultura hip-hop, em especial o rap, está tomando conta da indústria musical e cultural brasileira não há mais como negar. É só olhar o lineup dos principais eventos e festivais que acontecem país afora que vamos encontrar um ou mais representantes desse estilo musical. Um exemplo próximo, para nós, pernambucanos, é o Guaiamum Treloso Rural que, neste ano, colocou em seu lineup os rappers Baco Exu do Blues e BK. Entretanto, há uma outra realidade circundando o rap, uma outra maneira de entreter, sendo, inclusive, porta de entrada de vários artistas reconhecidos na cultura: são as batalhas de MCs.

As batalhas consistem em duelo de rimas e improvisação, onde, tradicionalmente, um MC desafia o outro, seja por sorteio ou não. Em alguns formatos, tais batalhas podem ter temas definidos - conhecidas como batalhas de conhecimento -, mas, atualmente, o formato mais tradicional são as batalhas de sangue, onde os MCs se “atacam” verbalmente durante um período de tempo estabelecido pelos organizadores. O vencedor é escolhido pelo voto da plateia, dos jurados ou na soma de ambos.

As batalhas de improvisação são antigas no país, mas nunca receberam atenção da grande mídia, estando sempre à margem do que é tido como cultura. Recentemente, o rap ganhou projeção no cenário nacional, mas esses duelos permaneceram invisibilizados pela indústria cultural hegemônica. Em contraponto, no Youtube, o número de views em vídeos de batalhas só aumenta, juntamente com a popularidade do estilo entre os negros e periféricos, que encontram nesses eventos uma possibilidade de entretenimento construtivo e acessível.

Em Pernambuco, a tradicional Batalha da Escadaria - que acontece todas as sextas, na Avenida Conde da Boa Vista - vê o número de competidores e público crescendo, ao passo em que outros eventos são criados. Hoje, já são conhecidas, além da Escadaria, o Recital Boca no Trombone (que acontece na Praça do Pereirinha, em Água Fria), Batalha do Núcleo (que acontece na Praça do Núcleo, em Jardim Brasil II), Batalha do Viaduto (que acontece próximo ao viaduto de Prazeres) e várias outras em comunidades da Região Metropolitana do Recife.

Por não ser um formato de evento abraçado pela população branca e de classe média, maioria intelectual do país, as batalhas de rima e improvisação são bastante criminalizadas, rendendo muitas vezes abordagens abusivas por meio da polícia, que enquadra participantes e decreta o fim dos encontros antes do que era previsto. Porém, a polícia não é a única parcela da sociedade a abusar do trabalho dos organizadores, público e artistas que compõem as batalhas, recentemente, em Recife, aconteceu um festival chamado Rap de Vitrine que em seu lineup contava com artistas como Djonga, Diomedes Chinaski, Matuê e Luccas Carlos, nomes fortes no rap nacional. Também na programação do evento foi incluída uma disputa de MCs, organizado pela Batalha da Quadra, que aconteceria no intervalo das atrações em um palco alternativo - sendo somente a final programada para o palco principal.

No dia seguinte ao evento, Wendell Souza, um dos jurados convidados, veiculou em suas redes sociais um vídeo de indignação ao que ocorreu com a batalha. Ele relatou que além de competir entre si, os MCs precisaram competir com o som alto que vinha dos DJs que tocavam no palco principal, ficando quase inaudível o que era improvisado pelos artistas. Além desse descaso, o jurado ainda relatou que a final programada para o palco principal não ocorreu, sem maiores justificativas além da falta de tempo. Os organizadores e competidores não receberam cachê ou premiação e sequer um lanche foi oferecido a estas pessoas - realidade completamente diferente da encontrada para as outras atrações.

Infelizmente, este não é um caso isolado, artistas independentes, em especial os negros e periféricos, sofrem com essa realidade frequentemente e é da força de resistência deles que temos uma cultura tão rica. Cabe a cada um de nós reconhecer e dá a devida importância a cada um deles.

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