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Av. Cde. da Boa Vista, área central do Recife. Fonte: Google Street View / Reprodução
Avenida Conde da Boa Vista, 17h05. Essa é só mais uma das histórias que tiveram como palco o maior corredor de ônibus da capital pernambucana. É só mais uma história do cotidiano de quem pega ônibus.

Parada lotada, cuidado pra não cair na pista.

- Que demora da gota! Tá parando aqui mais não, é? Faz num sei quanto tempo que tô em pé aqui — diz uma senhora de idade.

- Menina, o meu também tá demorando que só. — retruca uma boyzinha com camisa da pineapple.

Eis que surge no horizente a visão da esperaça. Finalmente! Levanta a mão e corre pra subir no ônibus que parou lá embaixo. Rápido, antes que perca os lugares bons, e olha que nem to falando de ir sentado, visse. A essa hora, conseguir um lugarzinho pra se escorar já é tudo na vida.

- Boa tarde! — cumprimento a motorista do ônibus que, por sua vez, me responde com um aceno de cabeça.

Dei sorte, consegui me encostar numa parte das barras de ferro perto do espaço reservado para cadeirantes.

A viagem segue normal. A motorista faz o que pode para ir mais rápido, mas essa é a maldita hora em que toda a região metropolitana inventa de sair do trabalho, escola ou sei lá mais o que. Já viu, né, fica aquele engarrafamento babado. Geralmente eu me preparo para essas situações, sempre deixo um livro na bolsa, junto com meu celular e fones de ouvido. Mas eu não estava com cabeça pra nada nesse dia, o ônibus chegou na Praça do Derby e acabou-se meu sossego quando subiu mais meio mundo de gente no coletivo.

- Tá vendo que não cabe mais ninguém! — esbraveja um velho.

- Eu quero chegar em casa hoje, não é amanhã, não. — brada uma poczinha em resposta.

A confusão se dissipa antes mesmo de começar. Ainda bem, por que eu já tava me preparando pra defender a bicha. Mas, como tudo se acalmou, volto minha atenção pro lado de fora e lá está ela. Os pelos arrepiam, os olhos arregalam, a vontade é de xingar. Uma SUV, grande, imponente, com aquele ar de coisa cara. Dentro dela, um homem de meia-idade, com um relógio do tamanho do mundo no braço (que certamente pagaria umas seis prestações da minha casa). E é só isso. Não tem mais ninguém, só o homenzarrão esparramado no banco do carro esperando o sinal abrir.

Olhe, eu peguei ar. Mas, é o que tem pra hoje. O sinal abre, o ônibus segue seu caminho e eu só espero que minha coluna aguente ficar nessa posição tronxa até chegar em casa.
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