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Três grandes leis regem a robótica no mundo das ficções científicas, são elas: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal; Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei; Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis. À essas leis propostas nos contos do escritor russo Isaac Asimov, também foi incorporada a “Lei Zero” em que um robô não pode causar mal à humanidade ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal. Muitas produções posteriores aos contos do Asimov aderiram a robôs que seguem essas leis ao mesmo passo que também temos representações de revoltas robóticas onde as leis são quebradas como em Exterminador do Futuro (1984) e Eu, Robô (2004), sendo este último uma adaptação cinematográfica de um livro do Isaac Asimov. 

Nas produções hollywoodianas não faltam exemplos futuristas de robôs que infringem algumas das leis e tornam-se um problema a ser resolvido pelos seus criadores, a humanidade. No presente não-ficcional de 2019 a discussão envolvendo a ação de bots (derivado de robots, do inglês) está em pauta, o futuro é agora e já temos que lidar com a seguinte questão: precisamos temer os robôs? 

Bots são programas de computador feitos para executarem tarefas repetitivas e em grande escala nos meios digitais, como, por exemplo, mandar os famosos “spams” dos e-mails ou responder automaticamente mensagens on-line. Mas o potencial incansável dessas máquinas digitais fez com que elas se tornassem o “trabalhador perfeito” na tarefa de defender alguém. Muito mais nocivo à humanidade do que gerar visualizações falsas no Youtube ou aumentar o número de seguidores no Instagram de alguma webcelebridade, os bots vêm se tornando militantes fiéis de políticos e fazendo a atuação política de robôs ser um tema relevante que precisa de discussão. 

Exército de bots

Os bots ainda não são autônomos o bastante para ostentarem um título de eleitor, mas eles já escolhem os políticos em quem irão votar. A eleição no Brasil em 2018 foi marcada por uma série de movimentos suspeitos dentro da internet, bots em redes sociais, como o Twitter, pautaram - ou pelo menos tentaram pautar - o debate público com o alavancamento de hashtags e ataques diretos à imprensa ou contra quem se mostrasse como oposição de um determinado plano de governo ou candidato. Os exércitos de bots agem de diferentes lugares do mundo. Os que costumam subir hashtags para os trending topics do Twitter acabam ficando mais vulneráveis a serem descobertos, pois como o microblog utiliza a localização física do usuário é possível apenas mudando o local dos tt’s ver, por exemplo, que uma hashtag contra a greve dos caminhoneiros no Brasil como foi a #AGreveFracassou ser um dos assuntos mais comentados na Índia, país que nem sequer têm o português como idioma. 

Se nas movimentações coletivas os bots são bem organizados, nas individuais não ficam para trás. Diferente das Inteligências Artificiais (I.A.) os bots não podem aprender coisas novas, mas eles respondem muito bem ao que já conhecem, se um bot é programado para fazer uma determinada ação ao receber um comando, sempre que aquele comando for acionado a ação será feita, por exemplo, o bot “Sous-Chef” criado pelo The Guardian que lhe apresenta receitas do seu acervo sempre que você enviar uma mensagem para ele via Messenger com o nome da receita que você deseja, agora imagine que um bot que controla uma conta no Twitter recebe o comando de sempre que alguém citar o nome de um candidato a um cargo político em um tweet ele defendê-lo ferozmente ou sempre que um determinado perfil falar sobre um assunto o bot responder com palavras ofensivas àquele perfil, são assim que funcionam os robôs militantes que tornaram exaltadas as discussões sobre política durante o período eleitoral no Brasil este ano. 

O candidato eleito à presidência, Jair Bolsonaro, foi alvo de denúncia por diferentes blogs e usuários de internet de utilizar bots durante a sua campanha. Os bots criticavam qualquer pessoa que se manifestasse em rede social contra o candidato, então, a saída dos internautas para escaparem dos bots foi a de usar pseudônimos para o candidato que lembrassem seu nome, como: “Bozo”, “Bonoro”, “Biloriro”, “Bolovo”, etc. Essa estratégia acabou desmascarando uma série de bots que se passavam por usuários reais quando os mesmos passaram a atacar também quem se referisse aos apelidos de Bolsonaro.

Identificando bots

Bolovo, além de um apelido para Jair Bolsonaro na internet, é um salgado com um ovo dentro típico de bares por todo o Brasil e ele foi a chave para desmascarar robôs militantes que agiam a favor do candidato. No dia 21 de outubro deste ano a página oficial no Twitter do jornal Folha de S. Paulo postou o link para uma matéria que trazia o bolovo como foco, ao citar o nome do salgado em seu tweet a Folha foi alvo do ataque de bots que identificaram o comando e responderam à publicação como se ela fosse relacionada ao candidato Bolsonaro, como no caso do bot “@TiagoAntiPT”: 


Após a confusão dos bots nesse evento a rede social pôde identificar @TiagoAntiPT como um bot e suspender a conta interrompendo as suas atividades. Segundo o próprio Twitter na sua central de ajuda “a maioria das contas é suspensa porque contém spam ou são falsas e representam riscos de segurança para o Twitter e todos os usuários”, mas nem sempre o site consegue lidar com todos os perfis falsos que ocupam entre 9 e 15% do total de usuários no mundo, situações como essa fazem surgir iniciativas como o “PEGABOT”, ferramenta desenvolvida pelo Instituto Tecnologia & Equidade (IT&E) e o Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio), que analisa o comportamento dos perfis e dá um percentual de probabilidade de um usuário ser ou não um bot disfarçado. O PEGABOT é uma ferramenta de livre acesso não só para seu uso online no site https://pegabot.com.br/ como também tem seu código disponível para que outros programadores possam criar a partir dele outras ferramentas de caça aos bots. 

Um outro lado dos bots

Apesar da aparência distópica que gera programas de computador agindo como humanos e induzindo nossos debates, existe um lado bastante prático e proveitoso na existência dos bots, como ressalta Daniel Veiga, co-fundador da Enfoca Chatbots, empresa que trabalha com prestação de serviço ao cliente através de bots. “Os bots podem resolver inúmeros problemas de um negócio, desde apenas atendimentos corriqueiros como responder dúvidas frequentes de clientes sobre algum tema da empresa, assim deixando a pessoa responsável pelas mídias digitais trabalhar realmente no que ela foi contratada, que geralmente é alavancar o alcance da empresa nas redes sociais, e não ficar respondendo a pergunta “que horas vocês abrem?” a cada 5 minutos por exemplo, outro exemplo seria um e-commerce através do Facebook. Com o Facebook você pode através do Messenger, sem criar uma conta ou baixar um aplicativo, fazer o mesmo fluxo de um e-commerce, para a empresa, podemos dar métricas que realmente interessam sobre o perfil e comportamento de compra dos usuários” afirmou.

Chatbots são robôs que através de algum sistema de troca de mensagens simulam uma pessoa real conversando sobre determinado assunto que ele esteja programado para responder e, além de estratégia de negócio para atendimento ao cliente eles também podem ser usados para causas sociais como meio de divulgação interativo como foi o Robô Ed, chatbot brasileiro criado em 2005 pela CONPET que conversava com os internautas sobre temas como natureza e sustentabilidade. Hoje, o Robô Ed não existe mais, porém não faltam bots que assim como ele fomentam e trazem temas relevantes para a sociedade, a exemplo do Projeto Caretas.

Fabi Grossi é uma jovem de 21 anos que teve um vídeo íntimo vazado na internet por um ex-namorado e vive o drama de lidar com essa situação complicada, ou pelo menos ela seria tudo isso se fosse real. A UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) em parceria com o Facebook criaram o Projeto Caretas, um chatbot via Messenger no Facebook onde você pode conversar com Fabi, em uma experiência que dura cerca de 48 horas e tem como foco trazer a tona o debate da exposição de vídeos íntimos na internet. Toda a conversa com Fabi é bastante imersiva, durante horários esporádicos do dia ela lhe manda áudios, fotos, dados que ela pesquisou sobre o assunto e o desabafo de uma jovem que não sabe muito bem como reagir a situação que está vivendo e pede a sua ajuda. 

A página do projeto no Facebook conta com mais de 300 mil curtidas e vem se mostrando um agente importante na conscientização do tema abordado pelo chatbot.

Mas então vivemos em um mundo que nossos debates e pautas em evidência são traçados por máquinas que desrespeitam a “Lei Zero” da robótica? Antes é necessário entender que bots são diferentes das I.A., eles não agem fora dos parâmetros iniciais que lhe foram impostos e não podem julgar por si, assim como nos contos do Isaac Asimov as falhas e revoltas robóticas são culpa da sociedade em que esses robôs foram criados, não é preciso temer os bots, mas é necessário colocar em discussão como usamos essa ferramenta.
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