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Sabe aquelas perguntas difíceis de responder? “De onde tu é?” é a minha. Sempre que eu ouço essas palavras, um filme roda na minha cabeça. A resposta depende mais de quem perguntou, do que de onde fica a minha casa. A verdade, verdadeira mesmo, é que eu não sei de onde eu sou, mas isso não é uma coisa que eu vou responder a um conhecido curioso em poucas palavras.

Cresci em um lugar me sentindo um peixe contra a maré. Uma bola vermelha num pote de bolas pretas. Uma estranha no meio dos conhecidos. Não me interprete mal, não há juízo de valor nisso, nunca me senti nem pior nem melhor, só diferente mesmo. Em Pão de Açúcar, o distrito em que nasci, não tive muitos amigos na escola, mas tive o suficiente. Não fui uma garota muito entrosada com a vizinhança, mas sempre soube de cor o nome de todos, pelo menos dez casas para cima e mais dez para baixo. Nunca fui uma religiosa assídua, mas me batizei, comunguei e crismei, como todo mundo deve fazer naquele universo particular. Sempre foi um pouco frustrante sentir que eu estava fazendo a “tarefa de casa” do entrosamento. Mas, por um motivo que eu nunca descobri, não funcionava. Logo eu, que me considerava tão boa em aprender e reproduzir.

Poucas pessoas têm noção da grandiosidade que são cerca de dez mil vidas verdadeiramente conectadas. A complexidade de todas essas pessoas de alguma forma entrelaçadas, como uma grande rede formada por nós. É doloroso se sentir um nó solto. Para o meu azar, nunca fui só eu que percebi essa situação. Sempre fui conhecida por mais gente do que o número de pessoas que eu cheguei a conhecer - e acredite, pouca gente me conhecia - , algumas dessas pessoas, que eu nunca nem soube o nome, nunca pouparam suas palavras para falar que não gostavam de mim. Antes que isso comece a soar como uma grande lamúria, não sinta pena, não é essa a intenção. O ponto é que todas essas coisas me fizeram fluida. As pessoas me sentiam diferente e eu concordava com elas, sem mágoa.

No início de 2014, no auge dos meus 17 anos, me mudei para o Recife, sem alarde, sem muita surpresa para ninguém. Tento visitar minha família umas três vezes por ano. Não é raro conhecer alguém novo em uma dessas idas para casa, mesmo que seja quase um uníssono universal que em Pão de Açúcar todos se conhecem. Meu sotaque confuso - nem de lá, nem de cá -, meu rosto pouco familiar e minha aparência um pouco incomum para o lugar, sempre leva algum desavisado a me fazer aquela pergunta difícil que eu falei: “De onde tu é?”. Geralmente a resposta é um “daqui” rapidamente emendado com um “mas já moro no Recife há um tempinho” na minha tentativa de me justificar, de explicar o daqui desencaixado. Lá eu sou daqui, uma metropolitana que nasceu no lugar errado por acaso do destino.

Aqui no Recife, quando alguém me pergunta de onde eu sou, a grande dificuldade é localizar a pessoa geograficamente mesmo. A resposta começa com um “Então…”, e em seguida vou falando o nome de todas as cidades vizinhas. Geralmente quando eu falo que fica entre Toritama e Santa Cruz do Capibaribe, num distrito de Taquaritinga do Norte, com cerca de dez mil habitantes, as pessoas se dão por satisfeitas. Dificilmente alguém tem interesse em informações adicionais sobre a pequena Pão de Açúcar, ocasionalmente perguntam o nome de lá, e quando perguntam, não levam muito a sério um lugar com nome de pão.

No fim das contas, acho que até hoje menti pra todo mundo. Quando vou para casa, vejo minha cama antiga, meu guarda-roupa ocupado com outras coisas, meu colchão que continua o mesmo, quase tudo que participou do que eu sou hoje, mas com quase nenhuma sensação de pertencimento. Quando volto, encontro minhas roupas, meus problemas, minha comida, meu cotidiano, mas sem sensação de casa. Me corrói a alma não saber o nome dos meus vizinhos, nunca ter assistido uma missa no Recife, mesmo hoje me considerando ateia, não saber o nome do padeiro e, diferente de todos com que eu convivo, não ter histórias de infância daqui pra contar.

Não sei se um dia conseguirei me acostumar, me sentir em casa em algum lugar, para todo caso seguirei mentindo, dizendo lá que sou daqui e aqui que sou de lá. Algumas coisas são difíceis mesmo de explicar.
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