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Opulence! You own everything”. Essa é uma das várias expressões da cultura ballroom que voltou a circular em espaços mainstream, sendo um deles o reality show RuPaul’s Drag Race. Mas você sabe de onde vem tudo isso?


Edson Vogue, dançarino pernambucano em batalha no BH Vogue Fever.
Foto: Bruna Brandão / Reprodução / Instagram

A cultura ballroom data desde antes dos anos 1960, abarcando uma série de eventos que reuniam a comunidade LGBTQ norte-americana, principalmente em Nova Iorque. Um dos principais acontecimentos nesse contexto eram os concursos de drag queens, no qual as artistas desfilavam pelo prêmio da mais bela e luxuosa da noite. Mas, mesmo dentro da comunidade LGBTQ, esses eventos ainda eram bastante segregadores, no sentido de que as drags brancas eram favorecidas.




Tudo muda quando a lendária Crystal Labeija se revolta e arma um barraco, recusando-se a perder para uma drag branca que, naquela noite, não estava tão bonita assim. Esse é um dos marcos históricos que constituem a cultura ball como conhecemos hoje, porque, a partir disso, Cristal cria o conceito de house ao fundar a House of Labeija, dando início a um circuito de balls (bailes) no Harlem e outros bairros novaiorquinos habitados majoritariamente por pessoas negras e latinas.




As houses funcionam exatamente como supõe o nome, são grupos de pessoas LGBTQ que se unem para formar uma família escolhida a dedo, num contexto em que muitas dessas pessoas são expulsas de casa. Essas casas são lideradas por membro que já possuem um certo destaque na cena ballroom local e, ao fazê-lo, recebem o título de mãe ou pai da casa.


Vogue
Foi na década de 1980 que o voguing teve seu primeiro boom. Essa dança, que percorre os mesmos caminhos que as drag queens na cultura ballroom, surge também em Nova Iorque, onde presidiários LGBTQ tinham acesso à revista Vogue como material de leitura durante seu período de reclusão e utilizavam a revista como fonte de inspiração para os movimentos e poses que realizavam na batalhas de dança do que, na época, se chamava de “Pop, Dip, Spin” e hoje conhecemos como Vogue Old Way.

Old Way
Esse estilo é o que podemos chamar de um voguing mais clássico, no qual os movimentos buscam a exatidão retilínea, posturas perfeitas e cheias de classe. Além da revista, servem de inspiração para esse estilos os hieróglifos egípcios e as artes marciais.


E é justamente nessa chave que surge o lendário Willi Ninja, que funda sua própria casa mesmo ainda não tendo ganho prêmios e vem a se tornar uma lenda para a comunidade. Ele, inclusive, é um dos entrevistados no documentário Paris is Burning (1991), que mergulha na cultura ballroom e as problemáticas sociais que circundam as pessoas LGBTQ.





New Way

Flexibilidade é a chave do New Way. Esse estilo, que se populariza no início dos anos 1990, é um pouco mais maleável em comparação ao Old. Aqui, os movimentos deixam de ser tão retilíneos, as juntas do corpo passam a serem mais usadas e até mesmo o contorcionismo circense entra na performance. Um grande nome desse estilo é o atual father da House of Ninja, Javier Ninja.




Femme

Inconformadas com a “masculinidade” dos outros estilos, as mulheres trans criaram o Vogue Femme, que, diferente dos outros, brinca com movimentos “arredondados”, com bastante uso do quadril. O Femme se divide em duas vertentes: o Soft Cunt, que busca uma feminilidade mais sensual, enquanto que o Dramatics explora a caricatice, o deboche puro em forma de dança.


Essas duas formas do Vogue Femme são postas uma contra a outra na batalha entre Inxi Prodigy, a Sailor Moon soft cunt, e Lasseindra Ninja, a Mulher Maravilha dramatics. 





Vogue Brasil

As principais representantes do voguing no Brasil se encontram na região sudeste. Paula Zaidan, Raquel Parreira e Maria Teresa Moreira (Tetê) formam o Trio Lipstick, que participa e organiza eventos na região. Anualmente, elas realizam o BH Vogue Fever, que traz grandes nomes do cenário internacional para repassarem seus conhecimentos em oficinas e julgarem os dançarinos que vem de toda parte do país para competirem na ball que é realizada ao final do evento.





Mas não é só no sudeste que vive o vogue brasileiro. A região nordeste é palco de uma cena em constante efervescência e crescimento. É o que chamamos de cena Kiki, formada pelas Kiki Houses, as casas menores.


Na Região Metropolitana do Recife, existe uma cena que luta para construir seu próprio espaço. Em anos anteriores, o Trio Lipstick veio à cidade como parte da programação do Coquetel Molotov, um festival de música independente realizado na cidade, mas a cena local ainda carece de eventos consolidados realizados por ela mesma.

Num cenário onde as músicas techno e house ganham força na vida noturna, Recife se mostra propenso ao fortalecimento de uma cena ballroom mais forte e independente.

O principal nome do voguing no estado é Edson Vogue, professor de dança graduado pela UFPE e passista de Frevo que conheceu o voguing através de Madonna. Em diálogo recorrentes, Edson conta que aprendeu de maneira autodidata, procurando por vídeos na internet num tempo ainda muito precário, no qual frequentava a Lan House “de favor”, graças a um amigo que trabalhava lá. Edson é fundador da House of Guerreiras e dá aulas de voguing, gratuitamente, aos domingos na Praça do Hipódromo.

A cena recifense têm ganho força com o surgimento de outras houses, são elas: China, Quartzo e Pussytivismo. Essa última, inclusive, deu um passo importante para a cena local ao realizar de maneira independente sua própria ball, sem esperar pelo apoio de eventos de grande porte.
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